Ora aqui está algo que o "artista" abaixo não hesitaria em subscrever...em 1975. Antes, a "legitimidade revolucionária"; Agora, o "estado de excepção" e o "protectorado". Os fins justificam os meios?
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
Porque será que a esquerda não arranca nas sondagens?
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
Crise e Estado de Direito
O Tribunal
Constitucional chumbou pela terceira vez um diploma apresentado pela maioria.
Trata-se da maior humilhação feita a um governo e uma maioria, sem precedentes
na nossa democracia.
Como é que um governo
pode ser tão obtuso ao ponto de ver três leis importantes, dois orçamentos e
uma lei essencial para a “reforma” do Estado, declaradas inconstitucionais? Até
onde vão a sua cegueira ideológica e incompetência técnico-jurídica?
Passos, ainda antes de
ser poder, apresentou um projecto de revisão constitucional que era a negação
da actual lei fundamental. Esse projecto foi liminarmente rejeitado por todos
os outros partidos, desde logo o PS, sem o qual não é possível formar a maioria
de 2/3 necessária à revisão. Pois bem, o patético primeiro ministro comporta-se
como se o seu projecto de revisão tivesse sido aprovado e a Constituição fosse o
que ele gostaria e não o que é. Tanta obstinação é estupidez.
O Tribunal foi
pressionado e ameaçado, e os juízes foram apodados de “primadonas” por
decidirem em tempo de férias e com quorum
reduzido, matérias tão importantes.
Hoje, pela boca do seu
presidente, o Tribunal respondeu serenamente que se limita a cumprir a lei
orgânica que regula o seu funcionamento – aprovada na AR, não mero regulamento
interno – e que tal não impede que as decisões tomadas em férias sejam menos
válidas que outras proferidas quando está reunida a totalidade dos juízes. Ao
contrário do governo, este órgão de soberania funciona regularmente.
De resto, não é novidade
que o TC profira acórdãos nestas circunstâncias; Foram já mais de cinquenta ao
longo da sua história, e não há lembrança de que as decisões tomadas em tempo
de férias tenham sido postas em causa por isso.
O Tribunal
Constitucional tem, ao longo dos anos, decidido com independência e
imparcialidade as questões que lhe têm sido colocadas. Tem produzido jurisprudência
de invulgar qualidade que deixa orgulhoso o direito português. O funcionamento
regular do TC é um garante da democracia. Os cidadãos sabem que podem contar
com ele. Nem a Constituição nem o Estado de Direito estão suspensos pela crise,
ao contrário das pretensões da direita. Não vale tudo.
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Tribunal Constitucional
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
SWAPS
Não acham estranho que um governo que é reconhecidamente lerdo e incompetente, invariável servidor de interesses privados, negligente na defesa do interesse público, depois de estar dois anos sem fazer nada quanto a este assunto venha agora querer resolver esta coisa dos Swaps a grande velocidade?
Não acham estranho que os Swaps tenham levado à sucessiva demissão de Secretários de Estado contaminados com estes produtos (à excepção, claro está, da agora Ministra Albuquerque) em vez dos costumeiros "Os factos reportam-se a um período em que o senhor secretário não era membro do governo", "Não cometi nenhuma ilegalidade" e "Estou de consciência tranquila"?
E o tal relatório? Encomendado a quem?
E a pressa em renegociar os contratos com os bancos?
E o banco que, ao renegociar os Swaps com o governo, ganha a gestão da privatização dos CTT?
Um dia a verdade será revelada em toda a sua sordidez sobre este assunto.
O meu faro diz-me que cheira a podre à distância.
segunda-feira, 29 de julho de 2013
QUATRO PÉROLAS ATIRADAS (POR) UM PORCO
“Não subestimemos a estupidez de Pedro Passos Coelho”
Clara Ferreira Alves
Passos Coelho citado no "Público" de 28 de Julho de 2013.
http://www.publico.pt/politica/noticia/portugal-esta-obrigado-a-fazer-agora-reformas-de-forma-concentrada-avisa-passos-1601599
Pedro Passos Coelho
anda em campanha eleitoral pelo país. E da sua boca saem as mais variadas
barbaridades. As declarações de Passos seriam cómicas e ridículas, se a posição
que ocupa – a de Primeiro Ministro (não executivo ou não, é indiferente) – não
as tornassem perigosas e trágicas. Mas vamos às pérolas. Abstemo-nos de dar
reparo na sintaxe e no léxico, no uso confrangedor das palavras que tornam cada
um dos seus discursos um insulto à língua portuguesa e reveladores de um
indivíduo obtusamente inculto.
Primeira pérola:
“Agora
tudo tem de se fazer neste período de três anos, tudo. A reforma do Estado, a
reforma das Parcerias Público-Privadas, dos contratos swaps - tudo o que constitui risco
elevado para o país, tudo o que nos impediu de crescer durante anos, tudo o que
aumentou o peso do Estado e obrigou os portugueses a pagar mais impostos”.
Para Passos, há um
antes e um depois dele. Trata-se de uma personalidade delirante, com um ego
doentio e que se julga senhor do país. Julga-se também um predestinado, o
salvador que vai fazer em três anos (mas não faltam só dois para as eleições?)
o que o mundo inteiro que o precedeu não fez em trinta. Coloca a “reforma dos
contratos swaps” (reforma?) no mesmo patamar da reforma do Estado, ou seja, é
tudo uma questão de números. A falta de reformas é a razão que “obrigou os
portugueses a pagar impostos”, o que significa que, feitas as reformas, sejam
elas o que forem, a carga fiscal irá diminuir ou até, quem sabe, desaparecer.
Diz isto quem é responsável pelo maior aumento de impostos de que há memória. E já agora, crescemos durante anos e o que nos impede de crescer agora é a austeridade.
Segunda pérola:
“Verdadeiramente, o que eu acho inaceitável é a indulgência
perante a irresponsabilidade e o que eu acho indesculpável é uma sociedade
política que não tem inteligência e exigência para cobrar a quem governa os
resultados que são importantes para o país”.
Passos considera
indesculpável que exista “indulgência” perante a irresponsabilidade. Não
sabendo bem (falha nossa, decerto) em que consiste a “indulgência” na mente iluminada
do chefe do PSD, não podemos concordar mais, se isso significar complacência
perante a irresponsabilidade. Olha quem fala.
E a quem se refere o PM
quando fala em “sociedade política”? Aos portugueses? Aos políticos? É apenas
outro pontapé na gramática? Parece que são os portugueses “que não tem inteligência e exigência” para cobrar a quem
governa. Para memória futura. Pela parte de muitos portugueses, essa exigência e
inteligência será revelada em momento oportuno, assim o esperamos.
Terceira pérola:
O
líder social-democrata defendeu depois que é preciso estabelecer uma hierarquia
do que é importante no país, para evitar um novo pedido de assistência externa,
acreditando que a Constituição não vai impedir as reformas necessárias. O pior
que pode acontecer ao país é ficar sem dinheiro para pagar
salários, considerou Passos, e lembrou que foi justamente por isso
que Portugal teve de pedir assistência externa.
Aqui
estamos no domínio da cartilha neo liberal e da ideologia simplória que a
enforma em todo o seu esplendor. Vejamos: Um novo pedido de assistência externa
estará dependente do estabelecimento de uma hierarquia do que é importante para
o país. E é Passos quem vai estabelecer essa hierarquia. Não sabemos ainda qual
o destino que vai ser dado ao que não é importante. Inanição? Fuzilamentos?
Câmaras de gás? Apostas, aceitam-se.
A seguir,
a clássica mentira de que a ajuda externa se deveu à falta de dinheiro para
pagar salários. Como todos os portugueses bem sabem, actualmente nem os patrões
nem o Estado pagam salários, já que estes são pagos pela Troika; os credores
estão sem receber quando as dívidas do Estado português se vencem (porque o
dinheiro está a ser usado para pagar salários) e a banca não foi recapitalizada
com dinheiro da Troika (porque esse dinheiro é usado, repita-se, para pagar
salários). Ou não?
Quarta pérola:
“Para
que isso não volte a acontecer, temos de fazer uma hierarquia do que é
realmente importante e o que não for tem de deixar de ser feito. As pessoas que
faziam aquilo que era menos importante têm que ser afectas a fazer outras
coisas que são mais importantes e, se não for preciso tanta gente para fazer
isso, essas pessoas têm de ir fazer alguma coisa para outro lado”. Não pode,
acrescentou, “o Estado ficar-lhes a pagar eternamente para fazer o que não é
preciso - isto é assim em qualquer país desenvolvido do mundo”.
Ignoremos a
infantilidade na construção do discurso, próprio de uma criança lerda que ainda
não completou o primeiro ciclo. Apelando aos melhores critérios interpretativos,
tentemos então decifrar o que preconiza este arauto do liberalismo para as
“pessoas”: As que estiverem a fazer coisas menos importantes têm de ser afectas
a fazer “outras coisas que são mais importantes” (sim, a qualidade do discurso
é mesmo confrangedora!), mas, se ainda assim, “não for preciso tanta gente para
fazer isso” (as coisas importantes), convidam-se as pessoas a ir “fazer alguma
coisa (importante ou não?) para outro lado”. Não, com o devido respeito, este
discurso não foi proferido por um drogado sob influência de substâncias
alucinogénas, foi mesmo o primeiro ministro português. Que fique registado: As
pessoas (os meninos?) devem ir fazer alguma coisa para outro lado…
Infelizmente, isto não é para rir. O discurso idiota de Passos revela o
desprezo pelos valores e a dignidade do trabalho e até do ser humano e
lembra-nos porque é perigoso eleger mentecaptos para o governo. Mais uma vez, o
conceito infantil de que quem não faz falta deve ir para “outro lado”. Estamos
esclarecidos.
A campanha prossegue alegremente e, estamos certos, outras pérolas serão
atiradas, não aos, mas pelos porcos do costume.
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Passos Coelho,
Reforma do Estado
quarta-feira, 24 de julho de 2013
Da Europa parte 2 Fim
Conclui-se a publicação do panfleto com a última parte do capítulo 7 dedicado à Europa.
A MOEDA ÚNICA
Para juntar a injúria ao
insulto, à crise das instituições, temos a crise da moeda única. Esta, criada
para dar à Europa a estabilidade cambial e afastar de vez o fantasma da
inflação, bem como para harmonizar os mercados e as economias e assegurar um
financiamento a baixos juros, a longo prazo, transformou-se num problema, um
verdadeiro nó górdio que ninguém sabe como desatar. O Euro, de solução,
transformou-se em problema. Porquê? Qual é o mal da moeda única?
Para entendermos o que
se passa com a moeda única, talvez valha a pena pensar em que consiste uma
moeda, bem, única. Mais uma vez, façamos apelo aos nossos primos da América e
comparemos o Euro com o Dólar.
O Dólar é emitido por
uma única entidade, tal como o Euro. Num caso, é a Reserva Federal, noutro, o
Banco Central Europeu.
O Dólar vigora em todo o
território dos Estados Unidos, sem variação cambial. O Euro também vigora em
todos os estados que aderiram ao tratado da união económica e monetária.
A Reserva Federal, após
análise cíclica às condições do mercado, emite uma nota em que fixa o valor da
taxa de juro que está disposta a pagar pela sua moeda. Esta nota tem a virtude
de “fixar” o mercado, isto é, os bancos que negoceiam moeda seguem aquela taxa
como referência, e as diferentes taxas de juro, consoante as maturidades,
variam, mas pouco, em torno da taxa de referência. O BCE faz o mesmo,
“fixando”, deste modo a Euribor. Esta missão é determinante em dois aspectos:
Primeiro, controla a estabilidade dos preços, ou seja, contraria as tendências
inflacionistas, contribuindo decisivamente para uma inflação tendencialmente
baixa. Segundo, fixando o “preço” do dinheiro, controla também os fluxos de
capital no mercado, não deixando que haja dinheiro a mais (o que conduziria a
uma desvalorização da moeda) nem dinheiro a menos (o efeito contrário). É este,
podemos dizê-lo, o maior sucesso até agora da missão do BCE.
A FED (nicname ou abreviatura para Reserva
Federal) emite dívida em Dólares e depois empresta esse dinheiro angariado no
mercado, quer aos bancos nacionais, quer aos bancos estrangeiros, quer ao
governo federal, quer aos governos estaduais. E agora é que se nota a diferença
entre uma moeda verdadeiramente única e uma moeda “quase única” ou “única, ma non troppo”. É certo que o BCE emite
dívida. É certo que o BCE empresta aos bancos. Mas o BCE não é o único nem o
mais importante emissor de dívida. Na zona Euro, cada estado é responsável por
emitir dívida para as suas necessidades de financiamento, em Euros, é certo,
mas tendo como respaldo as suas próprias reservas e os seus próprios activos. E
como um estado não tem, por si só, o poder de influenciar o mercado, este
percepciona a saúde da economia do estado emissor e o seu respectivo risco, e
cobra o yield ou juro, de acordo com
esse risco. E como os riscos variam de estado para estado, assim também variam
os juros cobrados. É esta brecha na unidade da moeda, a responsável pela actual
crise das dívidas soberanas.
Esta brecha existe
porque há, como dissemos, uma variação entre os juros que os diferentes estados
obtêm quando se financiam. A diferença é de tal modo acentuada que alguns
países financiam-se a juros muito baixos, e outros, a juros elevadíssimos.
Estes últimos, quanto mais necessitam de financiamento, mais se endividam,
porque maior é o serviço da dívida, ou seja, o valor dos juros que têm que
pagar, e quanto maior for a dívida, maior será o risco. Este, por sua vez,
determina o aumento dos juros e o consequente aumento do endividamento, numa
espiral de dívida que não pára de crescer.
REFORMAR A EUROPA: O
EURO
Comecemos, então, pela
moeda quase única. Se o problema tem a ver com a multiplicidade de emissores de
dívida, o que fazer?
Alguns Estados,
designadamente aqueles que têm melhor rating,
ou seja, menor percepção de risco, e por conseguinte, obtêm no mercado yields
mais baixos, entendem que as coisas devem ficar como estão, e que cada Estado
se deve desenvencilhar por si próprio no que respeita ao financiamento. Dizem
que os Estados com melhor rating não
devem ser prejudicados por aqueles em que os juros são mais elevados. No fundo,
se há uma diferença é porque uns são mais rigorosos e criteriosos ao passo que
outros são relapsos e gastadores. A história da cigarra e da formiga contada às
criancinhas. Dizem também que os seus contribuintes não devem pagar para os que
se “portam mal”, sendo estes, os Estados que estão em dificuldade.
Esta tese engloba duas
mentiras e uma estupidez. Primeira mentira: Uns são melhores do que outros
porque fizeram o seu “trabalho da casa”, isto é, uns são cigarras e outros,
formigas.
Esta mentira advém da
ignorância e da falta de qualidades de liderança e até da incompreensão do que
é a realidade europeia, que os políticos que integram actuais governos do
centro e norte da Europa patenteiam. O que há (e sempre houve) é economias mais
fortes e outras mais fracas, economias grandes e pequenas, economias
alavancadas na indústria e outras, nos serviços. Isto não significa que uns
sejam objectivamente melhores do que outros; significa apenas que uns têm
condições objectivas, históricas e estruturais para resistir melhor a uma crise
do que outros, desde logo porque o ponto de partida do seu desenvolvimento
económico foi diferente. Na UE há Estados que já eram muito desenvolvidos há
cem anos enquanto que outros só mais recentemente lograram alcançar
estádios de desenvolvimento semelhante. As diferenças na força das economias
não tem a ver com trabalho ou preguiça, com previdência ou imprevidência, com
poupança ou despesa; tem a ver com o facto muito simples de sermos diferentes,
tal como o Kentucky é diferente do Massachusetts sem que essa diferença em peso
económico signifique, por parte da FED, a asfixia financeira a um Estado e o
maná a outro. Ambos são estados da mesma federação e por isso recebem
tratamento igual e igual acesso ao financiamento.
De resto, a política de
estabilidade dos preços traduzida na taxa fixada pelo BCE, a Euribor, que já
mencionámos anteriormente, é um sucesso e decorre da harmonização dos riscos
com vista à obtenção de taxas de juro e de inflação tendencialmente baixas. De
facto, se a taxa média da Euribor for, por exemplo, 2% e um dado Estado tiver
uma taxa de inflação, digamos, de 1% ou menos, esse Estado em concreto estará a
ser “prejudicado”, na medida em que a Euribor para ele poderia ser mais baixa.
Já um Estado em que a taxa de inflação é de 3% estará a ser “beneficiado”,
visto que goza de uma taxa directora inferior à taxa de inflação. Porém, as
eventuais vantagens ou desvantagens egoísticas cedem perante o bem maior de não
haver, nem deflação nem hiperinflação. Na verdade, todos beneficiam, por igual,
de uma inflação tendencialmente uniforme e tendencialmente baixa, o que é um
bem de valor muito superior face às pequenas vantagens que um ou outro Estado
poderiam ganhar se a Euribor não existisse.
Segunda mentira: Uns não
devem pagar pelos outros. Esta mentira aviltante tem sido repetida à exaustão
pelos governos de direita da Europa do centro e norte. Demagogicamente,
referem-se aos seus contribuintes, que não devem pagar o esforço de equilíbrio
das contas públicas e do endividamento de outros estados, devendo essa
obrigação recair sobre os contribuíntes desses países em dificuldade. Trata-se
de uma mentira abjecta e que deve ser furiosamente repudiada.
Vejamos: Quando a Europa
“ajuda” um país em dificuldade, fá-lo através do FEEF, o Fundo Europeu de
Estabilidade Financeira. Mas quem é que financia este fundo? Desde logo o BCE,
que emite dívida própria, financiando-se no mercado primário, isto é, no
mercado em que apenas os maiores bancos actuam. Mas também financiam o fundo os
países da zona Euro. E como? “Com o dinheiro dos contribuíntes” dizem os
demagogos da direita. Não! Mil vezes não! O dinheiro dos contribuintes
constitui receita fiscal de cada Estado. E a receita fiscal faz parte do
Orçamento. É o FEEF financiado pelos orçamentos nacionais? Não! Então, meus
caros, o dinheiro dos contribuíntes não é visto nem achado para este fundo. Os
contribuintes pagam os seus impostos e a receita fiscal é integralmente gasta
dentro das suas fronteiras. Nem um cêntimo do dinheiro dos impostos serve para
ajudar seja quem for. Basta desta mentira!
Se não é financiado
pelos orçamentos nacionais, então como se financia o FEEF, para além do BCE? Muito
simplesmente, os Estados também vão ao mercado financiar-se e, como se
financiam no mercado primário, conseguem yields
de 1% ou menos. E é esse dinheiro – e não o dos contribuíntes – que vai
para o FEEF. Mas há mais: Esses Estados financiam-se a 1% ou menos, mas depois
as taxas de juro cobradas aos países sob resgate são de 3 a 4%, isto é, os
nossos “amigos” compram o dinheiro a 1 e vendem-nos a 3 ou 4! E tudo para nos
“ajudar”! Com amigos destes, quem é que precisa de inimigos?
A estupidez: A crise das
dívidas soberanas é sistémica e mina o Euro. Cada vez que um Estado fica em
dificuldades por não conseguir suster a sua dívida, é o Euro que fica em
cheque. E o sistema monetário tem mais de psicológico do que de estritamente
económico. A Europa não consegue sair da estagnação e alguém, algures, está em
recessão, ou tem défice excessivo, ou paga juros elevadíssimos. Estes fenómenos
arrastam a economia de um país para o fundo. E como estamos todos na mesma zona
monetária, os problemas de uns acabam por afectar todos. Estima-se que um valor
equivalente a 3 a 4% do PIB europeu seria suficiente para acabar rápida e
definitivamente com a crise das dívidas. Mas acabar com a crise implica
solidariedade em vez de egoísmo, liderança em vez de mesquinhez, visão e coragem,
em vez de mediocridade. E o que nos falta são lideres dignos desse nome.
Preferem continuar com as suas mentiras, pois pensam assim convencer os seus
eleitorados ignorantes e revanchistas. Enganam-se. Prolongando a agonia do
Euro, a crise tem o efeito de “ola mexicana”, isto é, replica em todos os
Estados, “cigarras” ou “formigas” por igual, mais tarde ou mais cedo. E se
fossem um pouco mais inteligentes e informados, os eleitores conservadores,
perante a crise que os atinge deveriam perguntar-se se as coisas são como lhes
contam.
O que fazer.
Emissão de dívida
unificada no BCE
A moeda única deve ser
verdadeiramente única e não se ficar pelas meias tintas. O BCE deve assumir a
missão de absorver toda a dívida pública de todos os Estados da zona Euro e
emitir em seu lugar dívida no mercado primário (logicamente a juros baixos) e
financiar a banca e os Estados com esse capital. Os estados, por sua vez,
corresponsabilizam-se, juntando os seus activos e reservas como colaterias,
isto é, como garantias, às reservas do BCE. Deste modo, repõe-se o tecto da
dívida – que, segundo condição do tratado, não deve ultrapassar os 60% do PIB –
alivia-se de vez a pressão das dívidas sobre a economia, visto que os juros,
por serem baixos, fazem baixar o serviço da dívida e libertam capital para o
investimento, e harmoniza-se o mercado, ficando a zona Euro com um mercado
monetário semelhante ao dos americanos, sem surtos de crise aqui ou ali.
Compensação da dívida
Uma vez que a maior
parte das dívidas soberanas são entre Estados europeus, ou seja, a maior parte
da dívida é doméstica ou interna à escala europeia, o montante das dívidas
deverá ser compensado até ao limite dos créditos, por meio de um mecanismo de
compensação de créditos e dívidas. Se o Estado A deve 100 ao Estado B, mas é
credor de 20 do Estado C, então o Estado A deixa de receber 20 e só paga 80 ao
Estado B, sendo certo que o Estado C entrega a este os 20 que devia ao Estado
A. O mesmo deverão fazer os bancos entre si, em operações de troca de dívida.
Deste modo, o montante global da dívida baixa acentuadamente, com benefícios
para todos, incluindo os Estados “fortes”, que terão nos Estados agora
aliviados, mercados com apetência e capacidade para adquirirem os bens e
serviços que os “fortes” produzem. Mais uma vez, é uma questão de inteligência
ou estupidez, de visão estratégica ou de demagogia.
Deixar falir os bancos
Desde 2008, a palavra de
ordem na UE foi “salvar todos os bancos”, ou “não deixar falir nenhum banco”.
Esta política foi adoptada por terror ao perigo sistémico, ou seja, à crença de
que, se um banco falisse, todos os outros iriam atrás e haveria uma catadupa de
falências, um efeito dominó com consequências catastróficas.
Não fazendo apelo a um
sem número de teorias da conspiração que apontam para os próprios bancos, como
sendo os autores desta tese (privatizar os lucros, socializar os prejuízos), a
verdade é que este perigo não é, pura e simplesmente real, como demonstram
muitos e bons economistas, para quem quiser informar-se.
Com efeito, existem
milhares de bancos na Europa, e se alguns falissem, os seus prejuízos
desapareceriam e os seus activos seriam tomados pelos seus credores, como, de
resto, acontece em qualquer outro ramo de actividade económica. A carteira de
títulos, as hipotecas, os depósitos, mudariam apenas de mãos; os depositantes
passariam a levantar dinheiro noutro banco. Uma eventual “limpeza” dos maus
bancos seria até profilática e, por isso, benéfica.
Alguns dirão: Não
podemos arriscar porque se um banco vai à falência, outros se seguirão.
Respondemos: Se é certo que, numa fase inicial, quanto mais bancos falirem,
mais falências se seguirão, não é menos certo que quanto mais falências houver,
mais perto se aproxima o momento em que as falências diminuirão, porque o
número de bancos no mercado diminui. Logo, haverá mais mercado e uma maior
consolidação por parte dos bancos sobreviventes. Deste modo, os bancos
consolidam, não porque recebem injecções de capital, mas porque absorvem as
disponibilidades do mercado, tal como acontece em qualquer outra indústria.
E os bancos
“demasiadamente grandes para falir”? Resposta: Ninguém (ou nenhum banco) é
demasiadamente grande para falir. A dimensão dos bancos pode ser controlada por
via legislativa, com reforço da supervisão e, eventualmente, com legislação
“anti trust”, obrigando os bancos demasiado grandes a dividirem-se em bancos
comerciais e bancos de investimento, dividindo deste modo, quer a dimensão
propriamente dita, quer os riscos associados a essa dimensão. Para além disso,
a história ensina-nos que a um período de consolidação marcado por fusões e
aquisições, segue-se um período de cisões e novas incorporações, ou seja novos
actores no mercado. No fundo, os bancos pedem aos governos para que estes
limitem os danos inerentes à lógica capitalista. Sejamos, pois, um pouco
cínicos e deixemos o “mercado funcionar”. E quando um banqueiro aflito pedir
ajuda, possamos nós responder: “It’s the economy, stupid!”.
REFORMAR A EUROPA: AS
INSTITUIÇÕES
Já discorremos supra
acerca das instituições europeias e comparámos estas com as americanas. Pois
bem, que reforma propomos para a Europa? A Europa que, de facto, já é uma
federação, deve finalmente assumir-se como tal e fundar uma constituição. Do
nosso ponto de vista, a política europeia deve nortear-se pelos seguintes
princípios, no que concerne à sua constituição política:
Primeiro princípio:
Separação de poderes entre os Estados Membros e a União. Cada Estado tem os
seus órgãos próprios de governo, mas estes não exercerão qualquer tipo de poder
ou influência nos órgãos de poder da federação. A jurisdição dos órgãos
estaduais não se estenderá aos órgãos federais. Nenhum chefe de estado ou de
governo nacional terá qualquer poder nas instâncias federais. Cada macaco no
seu galho.
Segundo princípio:
Primado da democracia sobre a plutocracia. Legitimidade e legitimação.
Escrutínio e responsabilização. Os órgãos de poder da federação europeia serão
eleitos por sufrágio dos eleitores europeus. Cada órgão será independente dos
restantes, isto é, nenhum órgão será nomeado ou escolhido por outro, nenhum
órgão poderá demitir outro, salvo em casos muito excepcionais. O órgão
executivo será escrutinado pelo legislativo. As decisões advirão do debate, do
consenso e do compromisso e não da imposição da vontade egoística de um ou mais
Estados sobre os demais.
Terceiro princípio:
Coexistência dos princípios da universalidade e da proporcionalidade. Será
assegurado o equilíbrio necessário entre a representação dos Estados e a
representação dos povos. A proporcionalidade deve ser directa, ou seja, os
povos devem fazer-se representar mediante a sua própria vontade, e não mediante
os Estados a que pertencem. E estes devem fazer-se representar por representantes
próprios, eleitos propositadamente para a função, e não por delegados dos
órgãos nacionais (governo).
Fundados nestes
princípios, propomos a constituição de três órgãos de poder.
O poder executivo será
exercido por um presidente, que será, de entre vários, o candidato eleito com a
maioria dos votos dos europeus. Este formará governo livremente, sem o
constrangimento actual de ter que escolher dois alemães e um holandês, ou dois
franceses e um austríaco. Escolherá, pois, segundo os critérios da competência
técnica e da solidariedade política, pouco importando que no elenco governativo
figurem três belgas e nenhum polaco, posto que os escolhidos sejam os mais
adequados para a pasta que ocupam. O Presidente – e o seu governo – terá a cabo
a condução da política geral da União, bem como a sua representação
externa.
O poder legislativo será
exercido em comum por dois órgãos, o Senado e o Parlamento.
O Senado será eleito
segundo um princípio de universalidade e terá assim a seu cargo a representação
dos Estados. Se forem dois senadores por estado, será composto por 56 senadores, se forem 3 por Estado, 84, o que se nos afigura mais desejável, já
que as estruturas multipartidárias avultam sobre as bipartidárias. Nenhum
Estado terá sequer a veleidade, num universo de 84 senadores, de impor pontos
de vista nacionais, pois não terá sucesso. Vigorará o consenso e o compromisso.
O Senado terá como atribuições aprovar as decisões mais relevantes para a vida
da União, validar os membros do governo e destituir, se for o caso, o
presidente, se este praticar actos de elevadíssima gravidade. Ratificará,
também, certas categorias de decisões do Parlamento.
Por sua vez, este será
eleito segundo um princípio de proporcionalidade. Os estados com maior número
de eleitores terão um maior número de representantes. E estes serão eleitos por
partidos, de modo a representar as diferentes sensibilidades. O Parlamento terá
a tarefa de escrutinar a acção do Governo e de cooperar com ele na elaboração
das leis comunitárias. Mais uma vez, prevalecerá a lógica europeia, ou federal,
sobre os interesses nacionais, visto que num conjunto de várias centenas de
deputados, nenhum estado terá o número suficiente de deputados para impor a sua
vontade, nem estes se porão de acordo entre si, já que, se é certo que a
nacionalidade os une, não é menos certo que os partidos e a ideologia de onde
provêem, os separam.
Em consequência com o
que propomos, o Conselho Europeu deve dar lugar ao Senado, e a Comissão
Europeia deve desaparecer para em seu lado surgir o Governo. Os poderes do
Parlamento devem ser reforçados. Deste modo, teremos um governo “do povo, pelo
povo, para o povo” (A. Lincoln) e não uma plutocracia opaca e não democrática
que toma decisões nas costas dos europeus e na qual estes decididamente não se
revêm.
CONCLUSÃO
Olhar para o futuro com
esperança. Abandonar os velhos clichés do crescimento e emprego vs austeridade,
do crescimento perpétuo do PIB, da obsessão com o défice e a dívida. Deixar de
lado as discussões sobre as culpas do passado. Abordar de uma forma nova e
criativa os problemas que enfrentamos e encontrar soluções que os resolvam, sem
medo de tentar o que ainda não foi experimentado.
Transformar
corajosamente a nossa democracia e moldá-la para o nosso século. Pugnar por uma
melhor democracia. Mais e não menos representatividade, legitimidade,
legitimação, responsabilização, em suma, incrementar a qualidade da nossa
democracia, de modo a que os povos tenham orgulho e confiança em quem os
representa e estes exerçam um verdadeiro mandato, ou seja, actuem em nome por
conta e no interesse de quem os elegeu.
Dar uma importância
decisiva à economia e ao seu núcleo fundamental, a empresa, enquanto geradora
de valor e de valores e enquanto geradora de emprego e elos comunitários. Repor
a ética na economia. Colocar a riqueza ao serviço da comunidade e dos povos é
muito mais inteligente do que retê-la para pequenos grupos. Focar o nosso
esforço no desenvolvimento e a qualidade, em vez do crescimento e a quantidade.
Para novos problemas, novas soluções. Inteligência e criatividade.
Respeito pelas pessoas,
seja pelo indivíduo, seja pelos povos e pelas culturas. Um país de cidadãos e
não de “privilegiados” e “desfavorecidos”, onde todos tenham iguais e reais
oportunidades e apoios, pois é no interesse de todos que todos possam singrar na
vida. Uma Europa de cidadãos e povos em que aquilo que nos une valha mais do
que o que nos separa. Uma Europa não só economicamente rica, mas social e
culturalmente rica, também. Uma Europa das pessoas e dos cidadãos por oposição
à actual Europa do dinheiro e dos plutocratas.
Respeito, enfim pelo
nosso planeta, do qual somos meros usufrutuários. Cuidemos dele, pois é o único
que temos. Que possamos entregá-lo aos nossos filhos em melhor estado do que
aquele em que nos foi entregue pelos nossos pais.
Tudo é incerto e derradeiro
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro…
É a Hora!
FERNANDO PESSOA
domingo, 21 de julho de 2013
Vós que entrais, deixai toda a esperança
Lasciate ogne speranza,
voi ch'intrate."
Dante Alighieri
Divina comédia. Inferno, canto III
Ilustração de Gustave Doré para a "Divina Comédia"
Cavaco decidiu, está decidido. Conforme havíamos dito
anteriormente, uma das hipóteses para a resolução da crise política aberta com
a demissão de Gaspar e a comédia de enganos que se seguiu era a continuação do
governo. E ela aí está. O presidente
optou por uma solução que reconheceu ser má e à qual não deu crédito na sua
mensagem de 10 de Julho. Mas o medo de eleições e as consequências
imprevisíveis da “vontade do povo” impeliram a pitonisa de Boliqueime a optar
por esta má solução, já que tudo é preferível ao exercício da democracia.
Estará agarrado ao
governo e será o presidente – o primeiro – que, perante uma gravíssima crise de
confiança e disfuncionalidade das instituições democráticas, não deu a palavra
aos eleitores.
Numa manobra muito pouco
inteligente, tentou amarrar o PS a um acordo de “salvação nacional” (“tudo pela
nação, nada contra a nação”, como dizia o seu grande mentor e ídolo, Oliveira
Salazar) para se salvar a ele próprio desta tão evidente colagem, julgando que
conseguiria pairar acima dos partidos. Enganou-se. Teve que assumir
publicamente o apoio ao governo e assim vai afundar-se com ele.
Passos respira de
alívio: Pode continuar com as suas negociatas e privatizações e prosseguir com
a sua cruzada ideológica contra o Estado, apesar de comer na sua gamela. E
desiludam-se todos aqueles que acham que o governo se demitirá, sejam quais
forem as circunstâncias; Nem o segundo resgate, que aí estará, mais dia menos
dia, nem uma estrondosa derrota nas autárquicas demoverá o nosso homem de
“negócios”. Ele está no governo para levar até ao fim a sua missão; Enquanto
todo o Estado não for privatizado, enquanto a matilha não estiver saciada, a
luta continua.
O irrevogável Portas
está eufórico: Vai finalmente governar com 12% de votos e mostrar a sua valia
como negociador. Estamos curiosos. Depois de ter brincado aos ministros com
dois ministérios inócuos (Defesa e Negócios Estrangeiros), agora tem finalmente
uma prova de fogo. Vamos assistir de camarote às piruetas do artista.
Entretanto, quatro mil
ou mais “trabalhadores” que nas últimas semanas viveram com o credo na boca,
respiram de alívio: Já não vão para a rua na véspera de Natal. Referimo-nos,
claro, aos boys e girls dos aparelhos dos partidos que sustentam o governo.
Tudo está bem quando acaba bem.
Seguro, mais fragilizado
do que nunca, ao menos não foi posto na rua por indecente e má figura porque
não assinou. Ficou, no entanto, evidente que ele só é líder porque o deixam, e
não porque quer. Não possui qualquer domínio sobre o partido. Mas mostrou
também que não sabe negociar (levar o manifesto eleitoral para a mesa de
negociações quando o que se impunha era divisar a estratégia para renegociar
com a Troika? Que infantilidade é esta?) e que, sem visão nem estratégia mas
apenas com medidas avulsas, não tem programa. É um líder a prazo. E o seu prazo
terminará antes das eleições. Costa terá tempo para ganhar em
Lisboa e lançar-se à conquista do governo.
Resta o bom povo
português, entalado entre a inevitabilidade da austeridade e a raiva
inconsequente, cada vez mais esbulhado na sua fazenda e ofendido na sua
dignidade. Quando tomar a palavra, não será já tarde demais?
terça-feira, 16 de julho de 2013
DUAS PROPOSTAS DE COMUNICADO DO PS APÓS A MENSAGEM DE SUA EXCELÊNCIA O PRESIDENTE DA REPÚBLICA
Escrito antes do meio dia de hoje.
A liderança do PS é fraca. Os percursos de António José Seguro e de
Pedro Passos Coelho são perturbadoramente similares, o que faz antever o pior, caso
o primeiro venha a assumir responsabilidades governativas. E, ao contrário do
PSD, no PS há gente atenta, à espreita e à espera do momento oportuno para
avançar.
Ao aceitar negociar, Seguro,
dando-se ares de “homem de Estado”, mais não fez do que cair numa esparrela
óbvia e pouco inteligente montada por Cavaco. Sem necessidade, tomou a
responsabilidade de tentar resolver problemas que não eram seus, colocou-se
voluntariamente sob a asa do Presidente e no mesmo saco com o governo, seja
qual for o desfecho do “compromisso”.
Se houver fumo branco nas negociações, e a menos que
Seguro consiga uma imprevisível e estrondosa vitória, como seja a anulação do
corte dos 4.700 milhões, a anulação do escandaloso processo de despedimento
colectivo na Função Pública a coberto da hipócrita “mobilidade especial”, a
anulação no corte das pensões, a baixa de impostos, etc., o PS deitará para o
lixo dois anos de oposição. Milhões de portugueses, quer os que já estariam
dispostos a votar PS, quer os traídos pelo PSD, não saberão em quem votar nas
próximas eleições. Provavelmente, a abstenção será muito superior a 50% e o
epíteto “são todos iguais” será – e com justiça – lançado sobre todos os
partidos do “arco”, dando assim razão aos que dizem não haver necessidade de
eleições. As despesas da oposição serão entregues por inteiro ao PCP e ao BE,
cuja representação parlamentar irá crescer, quer pelo aumento de votos, quer
pela abstenção. E Seguro será arredado da chefia do PS, já que os seus
adversários se perfilam para lhe retirar o poder, sendo uma capitulação neste
“compromisso”, mais do que justa causa para o seu despedimento, apesar das
votações “albanesas” do último congresso.
Se não houver acordo (ainda assim, o mais provável dos cenários),
Seguro será acusado de ser o responsável pelo fracasso, porque impôs condições
“impossíveis” face ao regime de protectorado, os compromissos com os credores, etc.,
isto é, o costumeiro chorrilho de asneiras e mentiras tão caras à direita
e aos seus comentadores. É uma “loose-loose situation”.
Isto só acontece porque a liderança
fraca e mole de Seguro configura-se como uma mera alternância e não como
alternativa. Nada na sua acção ou no seu discurso é novo ou diferente. Seguro
não cativa, não empolga, não entusiasma, não divide as águas, não apresenta uma
visão e estratégia para o futuro, não dá esperança, não convence. E a direita
sendo má, sabe que o PS não está melhor. Fosse outro, o líder, e já teríamos
eleições antecipadas há muito tempo.
DUAS PROPOSTAS DE COMUNICADO DO PS APÓS A
MENSAGEM DE SUA EXCELÊNCIA O PRESIDENTE DA REPÚBLICA
PROPOSTA UM
1- O Partido Socialista escutou atentamente a
mensagem de sua excelência, o Presidente da República. Nela constata que:
a) Não é mencionado o facto de que a crise
política que ora vivemos ter sido despoletada pela demissão do Ministro Vítor
Gaspar e a sua carta, na qual confessa o rotundo fracasso da política seguida
pelo governo;
b) Que a continuação desta crise foi motivada
pela nomeação da nova ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque – nomeada
para prosseguir, note-se, a política confessamente fracassada de Vítor Gaspar – o que levou à
apresentação do pedido de demissão do ministro Paulo Portas;
c) Que, posteriormente, houve um entendimento
entre os partidos que sustentam a coligação e que detêm maioria parlamentar na
Assembleia da República, no sentido de haver uma remodelação e a consequente
continuação em funções do governo.
2- Na mensagem do senhor Presidente, é
formulado um convite ao Partido Socialista, no sentido de este encetar
negociações com os dois partidos da coligação ainda no poder, com vista à
obtenção de um “compromisso de salvação nacional”.
3- Do ponto de vista do PS, quem colocou o
país na posição de necessitar de ser salvo foi a direita – O PSD e o CDS – e
não o PS. Com efeito:
a) Não foi o PS que derrubou o anterior
governo, precipitando o país para o resgate e para as mãos da Troika;
b) Não foi o PS quem, durante os últimos dois
anos, prosseguiu uma política cega “para além da Troika” que teve como consequências os desastres financeiro, económico e social em que hoje o país se encontra;
c) Não foi o PS que inviabilizou qualquer hipótese de compromisso durante os últimos dois anos, apesar da
disponibilidade que este sempre demonstrou.
4- O país tem quer salvo, não por meio
de um “compromisso” negociado com quem colocou Portugal em estado de
calamidade, mas sim pela acção de um novo governo, legítimo, saído de eleições,
nas quais o povo português possa expressar livremente a sua escolha.
5- Foi este mesmo entendimento que foi expressado ao senhor
Presidente da República.
6- Porém, o senhor Presidente entendeu decidir
de modo diferente, não dissolvendo a Assembleia da República e não convocando
eleições antecipadas. Respeitamos a decisão, mas não podemos concordar com ela.
7- Mantendo-se o actual governo em funções, cabe
a este e só a este a responsabilidade de tirar o país do estado de calamidade
em que o colocou.
8- O Partido Socialista nada tem a
negociar com a direita, pelo que declina o convite publicamente formulado pelo
senhor Presidente da República no seu comunicado.
Lisboa, 10 de Julho de 2013
PROPOSTA DOIS
Querem um toalhete? Limpem as mãos à
parede!
Etiquetas:
António José Seguro,
Cavaco Silva,
Crise política
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