Mostrar mensagens com a etiqueta Paulo Portas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Paulo Portas. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

COMÉDIA DE ENGANOS







   Estamos numa corrida de 5000 metros, e nove das doze voltas já ficaram para trás.

   Os anos de chumbo também já ficaram para trás.

   Não haverá mais austeridade (para além daquela que já tinha sido anunciada mas ainda não aplicada).

   Haverá só uma sucessão de pequenos e médios cortes e apenas nos ministérios.

   Afinal, sempre haverá um bocadinho de austeridade: o assalto às viúvas.

   As notícias acerca do assalto às viúvas são manifestamente exageradas.

   Quem deixou fugir a notícia de que haveria um assalto às viúvas?

   Afinal, confirmo que há um assalto, mas só às viúvas ricas.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

O PAI UBU



O PAI UBU





    Cavaco Silva é o político há mais tempo em actividade em Portugal. Ministro das finanças um ano, primeiro ministro dez anos, Cavaco é presidente desde 2006. Se não morrer nem for interditado ou destituído até ao final do mandato, quando sair terá completado vinte e um anos de poder.
    Em 2009, em plena crise mundial, o Partido Socialista perde a maioria absoluta e forma governo minoritário. Cavaco, que também formou um governo sem maioria, a sua primeira experiência enquanto chefe de governo, bem sabia quais as dificuldades que o governo iria enfrentar, ainda para mais, num ambiente de aguda crise e forte incerteza. Não obstante, permitiu que se formasse o governo naquelas circunstâncias, apesar de não ignorar as consequências.
    Em 2011, com o seu beneplácito, a direita – ajudada pelo Partido Comunista e Bloco de Esquerda, ambos sempre prontos para derrubar o PS, sejam quais forem as circunstâncias e as consequências – derruba o governo minoritário, precipitando o país para o resgate e o pedido de “ajuda” externa. Para Cavaco, este configurava-se como o melhor dos cenários para exercer a sua influência e acabar em grande a sua carreira política: Uma maioria de direita sob a sua égide, a canga do programa de resgate desenhado pelos seus ídolos, o FMI e os eurocratas de Bruxelas, aposto sobre o governo, enfim, as condicionantes de um “programa de governo” externo que iria colocar o país no rumo certo: o seu rumo.
    Porém, nestes planos de mentes brilhantes, há sempre algo que não corre bem. No caso, a confrangedora falta de liderança, inteligência e preparação do Primeiro Ministro Passos Coelho que, sem saber governar, entregou as rédeas do poder a um taliban da contabilidade, um lunático da austeridade chamado Vítor Gaspar. Este actuou como uma espécie de Joseph Mengele das finanças: Uma vez na posse do poder, deu largas à sua perversidade, fazendo experiências pseudocientíficas com a economia e o povo português, infligindo a este último, estúpidos e inúteis sacrifícios com gravíssimas consequências para o presente e o futuro.
    Dois anos depois, Gaspar, exaurido pelos consecutivos falhanços, dorido de tanto chocar com a realidade e sem margem de manobra para continuar a sua sádica política, retira-se, não, sem antes, confessar que falhou. Que faz Passos? Sabendo com antecedência que é preciso arranjar um substituo para Gaspar, o primeiro ministro faz subir a secretária de Estado do Tesouro à cúpula das finanças. Justificação: É a pessoa ideal para dar continuidade à política de Gaspar, ou seja, insiste obtusamente no erro.
    Entretanto, Portas, sob Gaspar, foi humilhado e ofendido, engoliu sapos, rãs, cobras, lagartos e toda a sorte de animais peçonhentos, participando num governo do qual diria o que Maomé não diz do toucinho, se estivesse na oposição, já que a política do governo a que pertence representa tudo o que o CDS rejeita. Mas Portas aguentou como um mártir da fé, tudo sempre em nome da sacra estabilidade, e para que se evitasse um segundo resgate, e já agora à espera de uma oportunidade. E esta acaba por surgir. Uma vez livre de Gaspar, julgou chegar a hora de inverter a política do governo. Porém, apanhado de surpresa pela escolha de Albuquerque para as finanças, entendeu não ter espaço no governo e demitiu-se. A demissão de Portas deve-se, pois, estritamente a razões políticas: Não quero Gaspar porque a sua política é errada, ainda que tenha que o suportar em nome da estabilidade; Sai Gaspar, então surge a oportunidade de mudar de política; Entra Albuquerque, então a política é para manter; Se a política é para manter, então saio eu, porque sou contra a política seguida e não quero que ela continue.
    Até aqui, assistimos a um drama mais ou menos canónico. Porém, surge então o absurdo: Passos, aterrado com o segundo resgate à porta, impede Portas de se demitir e, qual vítima de assalto à mão armada, dá tudo o que este quer. Afinal, se antes tinha entregue o poder a Gaspar, porque não entregá-lo agora a Portas? De qualquer modo, não seria ele a governar, já que não imagina o que isso seja. O seu cargo é o de “primeiro ministro não executivo”.
    Muito se tem dito de Portas. Troca tintas, salta pocinhas, homem sem palavra, etc. A nosso ver, a análise não pode incidir na personalidade, mas na política. Por mais escroque que possa ser enquanto personalidade, Portas é um animal político e é nessa perspectiva que o analisamos.
    Ora, Portas volta atrás na palavra, não porque choramingou um pouco mais por poder mas porque – na sua óptica – consegue aquilo que queria: Mudar a política do governo. E é por isso que a sua demissão deixa de fazer sentido. Senão, vejamos: Retira às finanças a negociação com a Troika, avocando-a para si, enquanto vice-primeiro ministro; Faz subir o ministro da economia a ministro de estado, equiparado, portanto, à ministra das finanças; Fica com a coordenação da economia, ou seja, em caso de empate entre a economia e as finanças, é ele a desempatar, e desempatará para o lado da economia.
    Deixemos de lado considerações futuras sobre as relações de confiança entre o vice e o primeiro ministro, se esta alteração de política seria exequível, se Portas teria capacidade de levar o barco a bom porto, se teria capacidade para negociar com a Troika, etc. A vitória de Portas na negociação configura, na realidade, uma inversão na política do governo.
    Após uma semana frenética de negociações, Passos vai várias vezes a Belém e anuncia, no sábado, uma solução para a crise política. Cavaco não só não pode alegar desconhecimento sobre as negociações, como esteve profunda e decisivamente envolvido nelas.
    Quarta feira, o presidente fala ao país. Todos esperam que, com maior ou menor relutância, aceite a proposta de Passos, até porque não se avistam no horizonte outras alternativas, avesso que é às eleições antecipadas. No entanto, em vez de resolver a crise política, o presidente prolonga-a e agudiza-a, fazendo o oposto do que são os seus deveres constitucionais. E que diz Cavaco? Três coisas.
    Primeira: Ao não mencionar sequer a demissão de Portas, a não aceitação dessa demissão por Passos, as negociações entre ambos e finalmente a solução que lhe foi apresentada, Cavaco rejeita liminarmente a proposta da coligação como se esta nunca tivesse existido. A proposta de remodelação não foi sequer considerada como uma das soluções plausíveis para resolver a crise política.
    Segunda: Com o habitual chorrilho de asneiras, lugares comuns e mentiras como justificações, (ressalve-se a única justificação atendível, a do orçamento para 2014), Cavaco rejeita antecipar as eleições para Setembro deste ano, mas, surpresa, propõe a antecipação para Junho de 2014, ou seja, quer fazer coincidir o fim da legislatura com o fim do programa de “ajuda”, de modo a que se abra um novo ciclo político com o início do período “pós Troika”. Sem satisfazer nenhum pedido nesse sentido, Cavaco aceita antecipar as eleições, discordando apenas do timing das oposições.
    Terceira: Contra aquilo que constitui o cerne da sua doutrina da interpretação que faz dos seus poderes constitucionais, Cavaco convoca os três partidos que assinaram o resgate e exige que se entendam, não só até ao termo da agora abreviada legislatura, mas também para futuro, o tal futuro “pós Troika” que, para o homem de Boliqueime, em nada se distinguirá do presente, salvo o acesso aos “mercados”. Esta esdrúxula aliança seria mediada por uma “personalidade” e os partidos terão que se pôr de acordo “rapidamente”.
    O país ficou aturdido. Que quer o homem dizer com isto?
    Em primeiro lugar, ao recusar a proposta de Portas/Passos, o presidente contradiz-se com toda a sua anterior e reiterada prática. Ainda na semana precedente, o presidente disse alto e bom som que o governo depende da Assembleia e não dele. Ora, como compaginar esta estreita visão constitucional das suas responsabilidades com a recusa de uma solução de governabilidade saída do quadro parlamentar e, por conseguinte, da maioria existente?
    Duas interpretações: Cavaco é malino, mesquinho, vingativo. Não perdoa a Portas ferroadas do passado e aproveita agora o ensejo para servir fria a vingança, atribuindo à jogada deste uma vitória de Pirro. Ganhando a negociação, Portas fica a arfar à porta do ministério como ex-quase-vice-primeiro-ministro, cortesia do maquiavélico algarvio. Esta argumentação é fácil e sedutora, porém, inconsequente.
    A apreciação do presidente, a nosso ver, é política. Dar o aval à solução apresentada pela coligação seria aprovar a inflexão na política do governo, aprovar o endurecer no tom com a Troika, (mesmo que tal nunca viesse, como não virá, a acontecer) porventura “flexibilizar” a aplicação do programa, no limite, abrir a porta à renegociação, o que seria uma heresia, deixar enfim o registo do “bom aluno”. E é isso que Cavaco rejeita ao rejeitar o plano Portas/Passos.
    Em segundo lugar, ao convocar – ainda que condicionalmente – eleições para Junho de 2014, Cavaco demite de facto o governo, deixando-o em gestão corrente, apesar de realçar contraditóriamente que este se mantém em “plenitude de funções”. Mas, que plenitude é esta, quando o governo não vê sequer aprovado pelo presidente a remodelação que propôs? Com que autoridade e força políticas é que pode implementar as medidas que propõe ao país? Ninguém o levará a sério. Estando a prazo, o tempo corre contra o governo e a favor de quem este pretende despedir ou prejudicar. Basta fazer de Penélope e desfazer de noite o que se fez de dia, esperando pacientemente o exitus do governo, tarefa em que, por exemplo, a nossa administração pública revela uma refinada competência. Esta demissão eleva o problema da credibilidade do governo a um novo patamar; Já não se trata de acreditar ou não que o governo seja capaz de levar a cabo as suas políticas, trata-se de não acreditar que o governo esteja ao menos em funções.
    A consequência desta demissão de facto é grave: Prolonga a agonia do governo e torna a crise política num dado permanente até Junho de 2014. Ora, o governo esteve em gestão desde a TSU até à decisão do TC, isto é, de Setembro de 2012 até Março de 2013. Agora, entra novamente em gestão de Julho deste ano até Junho do próximo. Claro está que, fosse outro o primeiro ministro, e a sua demissão já teria sido apresentada. Mas não é. Para quem se arroga ser o arauto da estabilidade, Cavaco lança o país na lama durante um ano.
    Em terceiro lugar, a “santa aliança” exigida aos partidos em nome da putativa “salvação nacional” acaba por ser uma proposta, no mínimo, cretina, já que o presidente tem por certa a não participação do PS num governo que não saia de eleições. Resta, pois, que esta fórmula se resuma a um “pacto de regime” que, como todos os que o precederam, se esgota no seu anúncio. A pretensão de Cavaco é, também ela, política; com esta aliança, o objectivo é tornar irrelevante o resultado eleitoral. Seja qual for o desfecho das eleições, os três partidos estarão amarrados ao pacto “pós Troika” e as políticas terão que prosseguir como se o povo não se tivesse pronunciado.
    Chumbada a imposição da “salvação nacional”, o presidente, sibilino, deixa antever que existem outras soluções jurídico-constitucionais. Quais sejam, não disse. Não é, no entanto, difícil adivinhar:
    a) Mantém o governo a todo o custo e recusa obstinadamente qualquer demissão até Junho de 2014 (ordem a que Passos obedecerá) ou
    b) demite o governo e convoca eleições assim que o orçamento para 2014 estiver aprovado e pronto para entrar em vigor (ou seja, demite o governo em Novembro ou em Dezembro) convocando então eleições para Fevereiro ou Março.  
    Remota ainda é a hipótese de demitir já o governo (vendo-se livre de Portas) e adoptar uma solução do tipo Mário Monti, isto é, manda formar um governo  presidido por uma “personalidade” da sua inteira confiança (Manuela Ferreira Leite, sua lugar-tenente? Lobo Antunes, seu mandatário?) que tenha por objectivo o cumprimento de serviços mínimos. Limitar-se a passar os dois exames da Troika que faltam e elaborar o orçamento, mesmo sabendo que este pode chumbar. Depois, eleições, ainda antes de Junho.
    Há ainda uma hipótese que Cavaco não representa como possível, mas que poderá ser a resposta de Portas: A demissão e abandono imediato deste e da coligação e até, eventualmente, uma moção de censura apresentada pelo CDS que forçará, sem apelo nem agravo, a dissolução imediata do parlamento. Rebuscada? Sim. Mas acreditamos que Portas ainda não teve a última palavra. E dele há que esperar o inesperado.
    A solução da “salvação nacional” é, pois, uma falsa solução que não resolve, antes agudiza e prolonga a crise política. É que o presidente não tem consciência do perigo que esta “solução” representa para o regime democrático. 
 Falhando, como, com toda a probabilidade, falhará o programa de ”ajustamento”, os três partidos – PS incluído – estariam associados ao falhanço que é essencialmente do governo e da política de Gaspar. Em quem votariam os portugueses, designadamente aqueles que, não sendo comunistas nem bloquistas, rejeitam a “ajuda” dos nossos amigos de Peniche europeus? Pode o país dar-se ao luxo, nesta hora grave, de ter 60 ou 70% de abstenções?   
Deixando para os dois partidos à esquerda do PS as despesas da oposição, reuniriam estes, naturalmente toda a fúria daqueles que perderam o emprego e as empresas e a vida que tinham por causa do governo. Pode o país dar-se ao luxo de ter na próxima AR 60 ou 70 deputados que são sempre parte do problema e nunca da solução, pois recusam sempre qualquer entendimento que resulte em responsabilidade?
    Finalmente, não será este cenário eleitoral pasto fácil para demagogos mais ou menos fascistas que empunhem a bandeira do “político que é contra os políticos” e do “partido que é contra os partidos”? Já tivemos um homem muito sério que nos veio endireitar durante quarenta anos. Chegou e sobrou. É este o entendimento que Cavaco tem da democracia.
   
   


      

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Um fim sem inferno ou um inferno sem fim?


Um fim sem inferno ou um inferno sem fim?



 (sem atribuir qualidades ou defeitos morais aos animais)


   Escrevo estas linhas numa semana histriónica em que o absurdo bateu à porta deste país.
    Em qualquer nação civilizada, a democracia tem regras não escritas que, por serem da mais elementar evidência, são seguidas por todos. Assim, ninguém confunde o poder com a autoridade, a investidura formal com a legitimidade democrática, as condições políticas para o exercício do poder com a aritmética parlamentar.
    Ora, temos um governo de coligação constituída por dois partidos, sendo certo que nenhum deles, por si só, dispõe de maioria parlamentar. Logo, se o líder de um dos dois partidos se demite alegando profundas razões de natureza política e não de outra ordem qualquer (pessoal, familiar, etc.), então, em qualquer país civilizado, repita-se, o partido cujo líder se demite sai da coligação, esta acaba, a maioria que apoia o governo extingue-se, o governo cai e o primeiro ministro apresenta a sua demissão. Isto é o que acontece em qualquer democracia civilizada.
    Não assim em Portugal. O primeiro ministro, pasme-se, não aceita a demissão do líder do parceiro de coligação e número dois do governo, apesar dessa demissão ser pública, irrevogável e por razões políticas, ou seja, por razões que implicam a dissolução da coligação e consequente queda do governo.
    Este facto inédito só pode ser explicado por duas razões:
Primeira razão: Passos está em completo estado de negação. Não imagina o que significa ser chefe de um governo europeu. Não tem noção do decoro que se exige a uma pessoa na sua posição. É um indivíduo completamente falho de ética, desconhecendo as regras do jogo democrático. Não compreende a diferença entre a legitimidade formal que advém da vitória nas eleições, legitimação democrática que se obtém pela aprovação das políticas implementadas pelo governo ao longo do tempo e que se conquista diariamente, e autoridade democrática, que se traduz na capacidade de liderança e motivação, na lucidez que se reconhece à tomada das medidas certas no momento oportuno, na capacidade de convencimento da justeza das suas posições quer perante apoiantes, quer perante adversários e na coerência entre o discurso e a prática políticas.
    Ora, está bem de ver que esta razão avançada faz todo o sentido. De facto, o governo teima em não cair apesar de não ter nenhumas condições políticas para governar. Senão, vejamos:
    O governo divorciou-se dos portugueses desde, pelo menos, o episódio da TSU. Não escuta ninguém, é imune à contestação de todos os sectores da economia e da sociedade. Há hoje uma unanimidade transversal a toda a sociedade na rejeição do governo como nunca houve no país. Mário Soares, Sá Carneiro, Cavaco Silva, José Sócrates foram por certo dos mais odiados primeiros ministros. Porém, nunca deixaram de ter, ao mesmo tempo, apoio entusiástico e significativo. Já Passos não é defendido por ninguém, porventura nem pela própria mãe. A mera existência do governo é intolerável para todos, mesmo para aqueles que supostamente o apoiariam.
    O governo gozou, no seu primeiro ano de mandato, do apoio do maior partido da oposição que até se absteve na votação para o orçamento de 2012, apesar desse voto ser irrelevante para a sua aprovação. Também na concertação social obteve um acordo, juntando associações patronais e a UGT. Hoje, o governo está completamente isolado e cortou todos os canais de comunicação com a sociedade civil, com os restantes partidos e com os parceiros sociais, mercê da sua confrangedora incompetência e do espectacular falhanço das suas políticas.
    Por fim, o governo não se entende sequer no seio da coligação. O primeiro ministro recusa-se obtusamente a ver a coligação como um entendimento entre dois partidos. Humilhou repetida e publicamente o líder do CDS, considerando-o até como o “n.º 3” do governo. As surrealistas reuniões de dez ou mais horas do Conselho de Ministros, bem como o relato quase em tempo real do que se lá passa atestam bem a falta de liderança do primeiro ministro e a falta de entendimento político entre os partidos. Como pode o governo pretender impor medidas ao país quando não consegue sequer gerar consensos no seu próprio seio? A rematar esta sucessão de episódios, a inédita recusa de aceitação do pedido de demissão de Portas. Esta atitude avacalha a dignidade do Estado. Passos governa como estivesse à frente de uma associação de estudantes. Patético!
    Porém, pode haver uma segunda explicação para que o governo teimosamente não caia: O medo de um segundo resgate. Este medo, na mente de Passos, é real. Tal representaria um triplo falhanço: Do governo, fiel executor do programa e que consegue a proeza de falhar todas as metas sem excepção, tornando inúteis e estúpidos os enormes sacrifícios feitos pelos portugueses; de Cavaco, que tem o programa da Troika como uma vaca sagrada e não representa como possível o desvio de um milímetro que seja, ou não tivesse sido o programa desenhado por académicos economistas, seus pares e portanto deuses cuja autoridade não se discute; e da própria Europa e da sua obtusa obstinação na austeridade que concebeu o programa e sempre elogiou Portugal como um bom aluno, fiel e obediente.
    De facto, e observando objectivamente os dados económicos, o segundo resgate não só é uma evidência como já só peca por tardio.
    Com efeito, em 2011, os yelds a 10 anos haviam superado a barreira dos 7% e hoje andam pelo mesmo valor; a dívida soberana havia ultrapassado os 100% do PIB e hoje atingirá os 140% no final do ano; O défice estava acima dos 6% e hoje está acima dos 10%; havia uma “double dip recession” ou seja, depois de ter entrado em recessão em 2009, o país saiu em 2010 para voltar de novo à recessão em 2011, o que era considerado uma tragédia. Pois bem, hoje vamos no terceiro ano consecutivo de recessão e sem fim à vista, o que é notável, se tivermos em conta que o nosso PIB em dois anos recuou 10 mil milhões de euros para valores de 2005. Finalmente e para juntar o insulto à injúria, o desemprego que estava nos 11% está agora em 20%, para já não falar nos números do investimento e do consumo interno. Dois anos após o chumbo do PEC 4 e da milagrosa “ajuda” que muitos comentadores louvaram como um “verdadeiro programa de governo, muito bem feito”, os dados objectivos não mentem. Todos os indicadores gritam por um segundo resgate. Portugal pura e simplesmente não conseguirá “regressar aos mercados”, nem em 2013, nem em 2014 nem, se tudo continuar na mesma, em 2015. Os números não mentem e são o que são: Não é possível. O resgate está iminente. Ou não?
    Quem foi resgatado em 2011?
    Em 2011, segundo um estudo do Bank of International Settlements, uma organização internacional com sede na Suíça, a percentagem de dívida portuguesa detida por credores institucionais europeus, isto é, bancos centrais, bancos comerciais, seguradoras, fundos de pensões e fundos de segurança social, era cerca de 75%. Em 2013, essa percentagem já é inferior a 50% e por 2015, será cerca de 25% do total da dívida pública portuguesa, ou seja, em quatro anos, metade da dívida portuguesa desaparece dos balanços dos credores institucionais europeus e é transferida para o FMI e o BCE. Isto significa que o “programa de ajustamento” visava um objectivo central, muito claro e, a nosso ver, único: Resgatar, não Portugal, mas os seus credores. O programa da Troika tem como finalidade resgatar os credores de Portugal, limpar a dívida portuguesa dos seus balanços. Como funciona este “esquema”? O FMI e o BCE, que têm recursos ilimitados, actuam como bancos tóxicos e emprestam dinheiro a Portugal para que este pague aos credores à medida que as obrigações se vencem. Os credores são pagos, livram-se dos títulos de dívida portuguesa e desaparecem, melhoram os seus balanços e os seus activos porque já não têm dívida má (a portuguesa, bem como a grega e a irlandesa) e compram nova dívida, agora dos países do norte da Europa, e Portugal transfere a sua dívida para estas instituições. Por 2015, a dívida soberana portuguesa estará nas mãos da banca e da segurança social portuguesas (os tais 25% que sobram) e Portugal terá três sócios: Um sócio de indústria, que é o povo português, que trabalhará para pagar a dívida, e dois sócios capitalistas, dois agiotas chamados FMI e BCE que emprestaram dinheiro ao país para que este pudesse pagar ao universo de credores que tinha, até não ter mais credores senão estes dois.
    Haver ou não um segundo resgate depende da vontade (e da necessidade) de os credores que ainda restam precisarem dele. Se decidirem que querem receber tudo até ao fim, nos termos afixados e a tempo e horas, obrigarão Portugal e engolir um segundo resgate. Mas se entenderem que o BCE pode continuar a emprestar dinheiro ao país à medida que este vai pagando aos credores, não haverá segundo resgate, pelo menos com esse nome. Uma coisa é certa: Quanto mais tarde, melhor será para os credores. Quanto mais tarde, mais credores terão sido pagos com o dinheiro da Troika e menos sobram à espera da sua vez de receber. Quanto mais tarde o governo podre do PSD-CDS cair, quanto mais tarde houver eleições, melhor para os credores. O governo não cai porque está numa corrida contra o tempo e a favor dos credores.
    Torna-se, por isso, imperioso que este governa caia o quanto antes. Mas a sua queda, por si só, não basta. É necessário impedir o segundo resgate, tenha ele o nome que tiver, e para isso só existem duas soluções: a moratória, como vimos defendendo num outro escrito, para a qual o tempo já está a escassear, ou a reestruturação pura e simples da dívida, com as consequências adversas, porém inevitáveis que esta medida acarreta. Negar eleições com o argumento de que seria pior para Portugal, que seria criar um “foco de instabilidade” é uma falácia ridícula. O que querem, sabemos nós bem: Ganhar tempo e ter a certeza de que o plano será cumprido até ao fim. Cabe a nós, portugueses, como aconteceu em 1383-85, como aconteceu em 1640-41, como aconteceu em 1808-10, a última palavra: Resgatar Portugal.