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sexta-feira, 14 de junho de 2013

Capítulo 5 (conclusão)

Do estado das coisas. Capítulo 5 (conclusão).

Investir.




Como investir?

    O actual governo pretende, com as suas políticas de austeridade, reduzir o défice e o endividamento, com vista a um rápido regresso aos mercados. O objectivo deste regresso é, para além de permitir que o Estado volte a financiar a sua dívida, ajudar a banca a financiar-se, de modo a que esta possa “ajudar” as empresas, isto é, de modo a que as empresas possam voltar a endividar-se junto da banca. Em suma, queremos diminuir a dívida para podermos ir aos mercados aumentar a dívida. Esta política faz algum sentido? Também nos parece que não. Equivale ao viciado que vai fazer uma desintoxicação para depois se poder drogar mais à vontade. É a repetição de um ciclo e espiral de dívida. De resto, desde pelo menos 2008 que andamos a ouvir o argumento estafado que “temos que ajudar a banca hoje, para que a banca ajude as empresas amanhã”. Quanto à primeira parte do argumento, não temos visto outra coisa senão a ajuda ilimitada à banca; quanto à segunda parte, temos esperado sentados.
    Assim, pensamos que o modo de investimento que tem sido privilegiado no nosso país – o endividamento das empresas junto da banca – não é o mais correcto. Por duas razões: Primeira, as empresas, quanto mais endividadas, mais frágeis ficam. O foco passa da criação de valor para o serviço da dívida. Segunda, um banco é um credor, não é um parceiro de negócio, não obstante a publicidade em contrário. O banco não entra no capital da empresa, não participa na gestão, não decide o investimento; apenas pretende reaver o seu crédito. Não tem mentalidade empresarial. A empresa tem um oponente e não um parceiro de negócio na sua actividade.
   
    Alternativas

    A verdade é que num país como o nosso, que possui um tecido empresarial pequeno, frágil, sobrendividado e subfinanciado, com os empresários constantemente focados quer na guerra com os credores, quer com o Estado e a sua “burrocracia” em vez de estarem focados no desenvolvimento dos seus projectos empresariais e na criação de valor, o endividamento junto da banca parece ser a única forma de financiamento. Porém, existem alternativas, desde que se tenha um bom governo e se pense “fora da caixa”.

    Venture capital ou capital de risco

    O capital de risco tem uma expressão ridiculamente insignificante no nosso investimento global. Consiste este conceito no seguinte: Ao investidor é apresentada uma empresa imatura ou até apenas ainda um plano de negócio. Os riscos são elevados, seja porque estamos perante inovação tecnológica, novo conceito de produção ou comercialização, as marcas e/ou produtos ainda não estão implementados no mercado, etc. O investidor entra com uma parte minoritária do capital, a suficiente, no entanto, para assegurar a viabilidade do projecto e, no sucesso da empresa, retira-se com o capital multiplicado pelo risco, isto é, arrisca muito mas, em caso de sucesso, ganha também muito. O investimento pode ser acompanhado de assessoria técnica e de gestão e/ou de endividamento (investimento) e os donos da empresa e mentores do plano de negócio, sócios ou accionistas, têm a segurança de poder continuar a gerir a sua empresa, uma vez que, na maturidade do projecto, o investidor do capital de risco retira-se e vende a sua participação, regra geral, aos donos originais da empresa.
    Esta é a principal ferramenta de investimento nos países anglo-saxónicos e o seu sucesso está comprovado por décadas de investimentos frutíferos. Na Europa em geral e em Portugal, em particular é olhada com desconfiança e até tida por ingénua, devido ao risco.

    Private equity

    Esta ferramenta é complexa e apresenta várias modalidades. De uma forma que possibilite uma fácil compreensão, podemos dizer o seguinte: Um investidor com boa disponibilidade de capital identifica empresas de média ou grande dimensão já maduras e implementadas no mercado, mas com potencial de mais valorização. Adquire capital da empresa, o suficiente para forçar a alteração na estrutura societária ou accionista da empresa, isto é, ao contrário do que se passa no capital de risco, aqui o investidor assume a liderança e o controlo da gestão. Esta entrada no capital é de ordinário acompanhada por uma reestruturação vertical da gestão e pela implementação de novos métodos e técnicas, novos produtos, cadeias de valor, alteração do “core” da empresa, etc. Estas mudanças substanciais envolvem risco, mas são potenciadoras de valorização da empresa no futuro. Normalmente, estas operações são acompanhadas por um grande endividamento (investimento) orientado exclusivamente para a concretização destas mudanças estruturais. Este endividamento pode ser, e normalmente é, alavancado, isto é, o investimento tem um efeito multiplicador. Na maturidade do investimento, o investidor retira-se, vendendo a sua participação social, seja aos outros sócios ou accionistas, seja aos administradores que, por essa via, se tornam em donos, seja pela dispersão em bolsa, seja ainda pela venda em bloco da sua participação a outra empresa ou a outro investidor.
    Mais uma vez, esta ferramenta de investimento tem o seu sucesso comprovado e é, a par com o capital de risco, a principal ferramenta usada nos mercados anglo-saxónicos. O facto de os investimentos serem avultados, o endividamento das empresas, volumoso e os riscos, elevados, torna o seu uso prudente, mas, não obstante, decisivo para tornar a economia de um país verdadeiramente criadora de valor e competitiva, visto que esta forma de investimento apela à excelência, quer da gestão, quer da produção, com incorporação de inovação, tecnologia, massa crítica e sofisticação.   
Objecções: Estas ferramentas de investimento são expressões do capitalismo “selvagem”. Em caso de insucesso, milhares de trabalhadores perdem os empregos e fundos públicos ou isenções e benefícios dados pelo Estado serão perdidos.
Crítica: Na verdade, não há nada mais capitalista do que as operações de venture capital ou private equity. No entanto, a história e as estatísticas dizem-nos que o risco de falência das empresas que usam estas ferramentas não é superior ao das empresas que se endividam perante a banca, nem as perdas institucionais (ajudas e incentivos do Estado, quando é o caso) são superiores. Pelo contrário, os investidores sabem que só têm retorno se a empresa tiver sucesso, pelo que, tudo farão para o conseguir. É certo que, na origem da crise de 2007/2008, a par de outros factores, estes investimentos também tiveram a sua quota parte de responsabilidade. Mas a verdade é que, com uma regulação e “policiamento” eficazes, os riscos podem ser substancialmente reduzidos com benefício para toda a economia. 

    Micro-crédito

    Esta modalidade de investimento surgiu, na sua forma moderna, no subcontinente indiano e originalmente destinava-se a assegurar o direito ao crédito por parte de grupos de excluídos, seja por falta de garantias (demasiado pobres para pedir), seja de género (mulheres). Caracteriza-se pela sua informalidade, a falta de garantias colaterais, o reduzido montante (de 500€ a 5.000€) e, surpreendentemente ou talvez não, pela elevadíssima taxa de retorno: cerca de 95% dos empréstimos são devolvidos.
    Este instrumento tem um papel mais social que económico e é particularmente útil em sociedades e economias muito pobres, em que qualquer investimento, por mais reduzido que seja, tem impacto na economia e no emprego.
    Ora, se transpusermos este conceito para a realidade dos países desenvolvidos e englobarmos neste modelo: a) montantes mais elevados de empréstimo (5.000€ a 50.000€), b) garantias baseadas, não no património do devedor, mas no potencial de investimento, c) assessoria técnica e de gestão, d)formação e treino intensivo de cultura empresarial prévia ao empréstimo, poderemos ter uma ferramenta essencial para potenciar o aparecimento de um número muito significativo de micro empresas. Estas terão efeito positivo no emprego, seja na criação do próprio emprego, no emprego familiar e no comunitário. É um instrumento particularmente útil no que concerne à reconversão profissional de mão de obra de qualificação intermédia e madura, sem lugar no actual mercado de trabalho. Pelo número de empresas que cria, potencia igualmente a dinamização das economias locais e renova o tecido empresarial.

    As três alternativas de investimento que vimos de descrever, conjugadas com o tradicional crédito às empresas por parte da banca e do investimento público, podem e devem arrancar a nossa economia da letargia causada pelas políticas de recessão e austeridade. Mas como coordenar esses investimentos?
    Dissemos supra que se seguíssemos a estratégia do “chapter 11” e declarássemos a moratória, seriam libertados cerca de vinte e cinco biliões de euros em três anos. Pois bem, se um bom governo utilizar esse dinheiro na criação de um fundo soberano gerido pelo banco público Caixa Geral de Depósitos, desde que esta tenha uma gestão ética e profissional e deixe de ser, de uma vez por todas, um “centro de dia/unidade de queimados” de políticos mais ou menos reformados ou não nomeáveis para cargos públicos, mas a quem se tem que pagar favores, esse fundo soberano poderia servir para realizar os investimentos necessários na economia.

    FUNDO SOBERANO

    Diversos países, mormente aqueles que possuem recursos petrolíferos, instituíram fundos soberanos com vista à aplicação de capital em investimentos e participações estratégicas, seja na compra de dívida estrangeira, seja na aquisição de participações relevantes em grandes empresas à escala global.
    Este conceito pode ser aproveitado por nós para, com os 25 biliões libertados pela moratória, instituir em Portugal um fundo soberano. Porém, permitimo-nos ir um pouco mais longe e pensar que, se o destino do investimento é a nossa própria economia, e se investir na economia implica investir sobretudo em empresas, e se as ferramentas que advogamos como adequadas são as que estão relacionadas com venture capital e private equity, então parece fazer sentido procurar parceiros que tenham experiência e know how nestas áreas e que este fundo tenha como parceiros institucionais, empresas globais e de excelência nestas actividades. Vamos ainda um pouco mais longe. Não só o fundo deve procurar parceiros estratégicos, mas também estes parceiros devem entrar com capital para o fundo. Deste modo, reuniremos num só fundo, duas ferramentas fundamentais: capital para investir, e conhecimento para o fazer bem feito. Claro está que estes parceiros terão interesse em que os investimentos sejam produtivos, e por isso terão a drive e a motivação para assessorar correctamente o investimento.
    Deste modo, teremos pelo menos 25 biliões de euros, que podem subir para 30 ou mesmo 40 biliões; este capital será investido integralmente na economia portuguesa; nos sectores de actividade previamente identificados pelas razões supra aduzidas; com os instrumentos ou modalidades de investimento acima referidos; com a assessoria técnica dos parceiros envolvidos.
    Há ainda uma outra vantagem. Este fundo deve ser gerido com critérios exclusivamente empresariais, pelo que deverá existir um grau de discricionaridade na eleição das empresas e projectos a apoiar, por um lado, e na quase ausência de burocracia, eurocracia e “burrocracia” que são apanágio da aplicação dos quadros comunitários e de programas governamentais de estímulo. Feita a análise técnica e decidido o investimento, o procedimento deve ser rápido e ágil, ao contrário do que sucede com os programas oficiais e comunitários que levam os empresários ao desespero com os incontáveis prazos, estudos, pareceres, alvarás e autorizações.
    Actualmente, o nosso decisivo défice é o défice empresarial; para uma população de cerca de seis milhões de adultos em idade de trabalhar, não temos mais de 350 mil empresas, quando deveríamos ter (à razão de 1 para 10) cerca de 600 mil empresas. Faltam, pois, cerca de 250 mil empresas no nosso universo empresarial. Nisto consiste o nosso verdadeiro défice. Sem resolver este problema – o da fragilidade do tecido empresarial – nenhum outro problema ficará resolvido. Sem empresas, não há emprego. Sem empresas não há criação de valor, nem exportações, nem mercado doméstico, nem investimento.

    Investir esta quantia – 25 a 40 biliões de euros - em três ou quatro anos significa investir cerca de 15 a 25% do PIB actual, o que teria um impacto brutal na economia. É ousado? Sim. É novo? Sim. É arriscado? Sem dúvida. Nunca foi tentado antes? Não. Resultará? Acreditamos que sim, haja coragem.

domingo, 9 de junho de 2013

Capítulo 5 (continuação). Investir.


Do estado das coisas
Capítulo 5 (continuação)

Onde aplicar o dinheiro?

    Dissemos acima, a propósito da moratória, que o dinheiro que não é pago aos credores seria usado para investir na economia. Como? Onde? Quando? Por quem? Com que objectivos? E que resultados devemos esperar? Procuraremos responder a estas e outras perguntas.
    A propósito das falsas soluções avançadas, quer pela direita, quer pela esquerda tradicional, afirmámos que o investimento em obras públicas adjudicadas a grandes grupos empresariais é uma receita estafada e reprodutora de dívida no futuro. Ponhamos, pois, esta ideia de parte. Para sabermos onde e como investir, torna-se necessário conhecer as nossas fraquezas e os nossos activos para sabermos com o que contamos.

    Ciclos de actividade
   
    Um dos problemas que enfrentamos nas crises é o facto de elas serem cíclicas. De tempos a tempos, ultimamente, a cada década, há uma crise. Tudo vai abaixo e depois, passados alguns semestres, tudo volta acima. Assim, um dos problemas a solucionar, do ponto de vista do investimento, é que deveremos investir em segmentos que tenham maturidades desencontradas, isto é, enquanto um sector de actividade vai abaixo no decurso de uma crise, outros permanecem porque possuem uma curva de longevidade muito maior que aqueles que quebram. Por outro lado, também importa ter sectores de rápida recuperação. Em suma, uma economia inteligente e sustentável é aquela que tem simultâneamente sectores de actividade com ciclos curtos (um ano, dois anos) e ciclos longos (cinco anos, dez anos, vinte anos). Quando sobrevém uma crise, uns sectores afundam, mas outros sustentam a economia e o emprego. Deveremos, pois, gerir a nossa floresta de investimentos, plantando espécies de árvores que crescem, umas ao fim de dez anos, outras ao fim de vinte, outras, oitenta. Umas dão madeira, outras dão resina, outras ainda dão frutos ou sementes, umas ardem facilmente e renegeram-se rapidamente enquanto outras são resistentes ao fogo, umas necessitam de água abundante e outras sobrevivem a longos períodos de seca, umas sofrem com temperaturas extremas enquanto outras as suportam sem dificuldade. Este mix de investimento em sectores diferenciados assegurará a sobrevivência durante as crises. Eis uma das noções possíveis para a expressão “desenvolvimento sustentado”.  

    Conhecer os nossos activos

    Portugal possui essencialmente dois activos: o seu território e o seu povo.

    Território

    Quanto ao primeiro, o nosso território tem como principais vantagens:

- O seu posicionamento geográfico, na extremidade ocidental da Europa, junto ao norte de África, é o ponto mais próximo a partir do nosso continente quer da América do Norte, quer da América do Sul. Alguns poderão dizer que somos periféricos: Periférica é a Nova Zelândia, cujo continente mais próximo é a Antárctica, e que não obstante é o 23º país mais competitivo do mundo, ao passo que nós somos o 49º.

- A sua costa marítima, superior a 1000 km de extensão. A suíça não possui saída para o mar e é o 1º país no ranking da competitividade.

- A qualidade e extensão da nossa zona marítima económica exclusiva, abrangendo quer a plataforma continental, quer as águas profundas do Atlântico.

- Os dois melhores climas do mundo, o mediterrânico e o atlântico, respectivamente a sul e a norte da bacia do Tejo. Não temos temperaturas extremas.

- Todo o território está abrangido por bacias hidrográficas. Não temos desertos.

- Mais de 90% do nosso solo é arável.

- Culturas autóctones de flora e fauna, seja por exemplo, em castas de uvas, seja em raças de gado.

    As nossas principais desvantagens:

- Desordenamento geral do território, com construção dispersa e de má qualidade e a consequente teia complexa de redes de vias de comunicação, esgotos, água, electricidade, telefónica, etc.

- A erosão acentuada dos solos derivada sobretudo aos fogos florestais e ao abandono dos terrenos de cultivo.

- A macro propriedade, no sul, subaproveitada e semiabandonada, e a micro propriedade, no norte, demasiado fragmentada para ser economicamente explorada com viabilidade.

- A poluição e a contaminação de solos e águas, fruto do desordenamento e ausência de políticas ambientais coerentes durante décadas e o muito que ainda há a fazer no que diz respeito ao tratamento e armazenamento de resíduos sólidos e líquidos.

- A política de solos, com a conversão de solos de reserva agrícola e ecológica em aptidão urbana, e as consequências ambientais (para não falar nas económicas) que daí advêm.

- A ausência de “corredores” significativos de reservas ecológicas que permitam reconstruir e manter os habitats naturais para fauna e flora selvagens.

- A sobre exploração das pescas e a poluição do mar e dos fundos marinhos.

    Povo

    O nosso povo apresenta características que o distinguem favoravelmente de outros, como sejam:

- Um povo de uma só “etnia”, apesar do caldo genético e cultural de que somos formados. Não há entre nós clivagens de etnia ou raça. Portugal é um dos raros Estados-Nação do mundo, ao contrário de estados plurinacionais como a Espanha ou pluriétnicos como a Ex-Jugoslávia, que é Ex, justamente por causa da questão nacionalista e étnica.

- Um povo de uma só língua, uma só cultura e uma só “religião”. Muito embora sejamos um Estado rigorosamente laico, mais de 90% dos portugueses professam a mesma religião e a variação linguística não divide o país em línguas ou dialectos.

- A língua portuguesa é uma das mais faladas, escritas e estudadas do mundo e está em franca expansão. Perguntem aos húngaros se não gostariam de ter esta vantagem. Uma língua global aporta vantagens económicas aos seus falantes.

- A adaptabilidade dos portugueses. Os portugueses adaptam-se rapidamente às diferentes realidades, são maleáveis, curiosos, inclusivos, ao contrário de vários povos do norte e leste da Europa, por exemplo. O português aprende depressa, tem aptidão para as línguas estrangeiras, estabelece rapidamente contacto com os outros e absorve as culturas estrangeiras sem dificuldade.

- A inteligência emocional e o espírito especulativo dos portugueses. Estamos focados na solução dos problemas, arranjamos rápida e expeditamente solução para tudo, mesmo que não seja a melhor ou a mais duradoura. Procuramos saber como se faz, somos “desenrascados”, temos boa capacidade de improviso, somos criativos.

- O desenvolvimento de um “saber- fazer” que nos é próprio, bem como a especialização em determinados sectores de actividade.

    Um povo com qualidades não está, porém, isento de defeitos:

- Somos melancólicos, saudosistas, fatalistas. Falta-nos voluntarismo e optimismo e somos um pouco agarrados ao passado.

- Somos tendencialmente indolentes e pouco “profissionais”, muito embora estes defeitos estejam hoje em dia um pouco mais diluídos no nosso carácter. Referimo-nos à pontualidade, assiduidade, cumprimento de prazos, etc.

- Somos pouco práticos, escondemo-nos atrás dos formalismos. Somos burocráticos, antes de tomar uma decisão são sempre necessários estudos, projectos, autorizações, pareceres, etc.

- Falta-nos ousadia. Somos adversos ao empreendedorismo. Os empresários são olhados com desconfiança. O objectivo dos jovens nunca é criar a sua própria empresa, antes arranjar um bom emprego onde “encaixem” bem e, de preferência, fiquem lá, confortáveis, para o resto da vida.   

- A pretexto de pretendermos uma organização perfeita, a organização, quer do nosso Estado, quer das nossas empresas, deixa muito a desejar. A desorganização, o laxismo, o botabaixismo, a negligência, os interesses egoísticos imperam. Alguns serviços do Estado (os tribunais, por ex.) têm uma organização arcaica, de um amadorismo confrangedor. Outros, com tantas directivas e procedimentos, são rígidos e formalistas. Há pouca ou nenhuma inovação e responsabilização organizacional e falta-nos o sentido comunitário. Nem as empresas estão focadas no cliente, nem os serviços do Estado, no utente.

    Tendo em conta estes activos, e considerando as suas vantagens e desvantagens, onde, isto é, em que áreas investir?

    Identifiquemos cinco áreas:

    Investigação e desenvolvimento

    Esta área tem as seguintes características que aproveitam os nossos activos e se enquadram nos objectivos previamente definidos:

- Ciclo de longa duração. Os resultados na ID podem demorar anos a chegar. Um projecto de investigação, se devidamente planeado e financiado, atravessará incólume por períodos quer de crescimento, quer de recessão.

- Aproveitamento de recursos humanos qualificados e com ligação quer à indústria, quer à universidade.

- Aplicação do output gerado a outros sectores da economia (indústria e serviços, agricultura, saúde, educação, etc.).

- Área potenciadora de internacionalização e sofisticação empresarial.

- Aporta massa crítica, quer à comunidade científica e técnica, quer à comunidade empresarial. 
   
        Agricultura e pescas

    Definiríamos com mais acuidade esta área como a exploração sustentada dos recursos naturais, quer terrestres, quer marítimos. Significa isto a exploração das florestas, o cultivo dos solos e a exploração sustentável dos recursos piscícolas, bem como o aproveitamento das nossas características excepcionais para a aquacultura. Esta agricultura não deverá ter nada a ver com a tradicional agricultura de (in)subsistência. Os agricultores deverão ser empresários agrícolas que tomam a terra como um activo a partir do qual se cria valor. A tecnologia e o estudo científico devem prevalecer sobre a ignorância e os maus costumes. Esta área apresenta as seguintes vantagens:

- O apelo à mão de obra local recentra as populações e impede a desertificação do interior.

- A interacção com as indústrias de ID.

- O aproveitamento do “saber-fazer” ancestral agora adaptado e tecnologicamente enquadrado, bem como o potenciar das nossas fauna e flora endógenas.

- Os ciclos quer curtos (um ano) ou longo (vários anos) consoante o tipo de exploração, permitem a coexistência de ciclos desencontrados que sobrevivem às crises e delas recuperam rapidamente.

- O crescimento da produção silvícola, agrícola e piscícola permitem reduzir substancialmente as importações e repor as nossas reservas estratégicas alimentares.
   
- Reposição do ordenamento, recuperação da saúde dos solos, reposição de áreas ardidas, menos exposição à erosão, reposição de fauna e flora selvagem por meio de uma gestão sistematizada e coerente do espaço.

    Ambiente e energias renováveis

    Esta área de actividade é das que potencialmente mais pode crescer, visto que muito, quase tudo, está por fazer. Vantagens:

- Interacção com as indústrias de ID.

- Uso de mix de mão de obra, quer intermédia, para tarefas de execução, quer especializada.

- Intervenção decisiva na recuperação ambiental (descontaminação de solos, águas, requalificação de habitats, repopulação de fauna e flora selvagens, etc.).

- Reordenamento do território em estreita cooperação com as políticas agrícolas.

- Aproveitamento das extraordinárias e diversificadas aptidões do território para a produção de energias limpas, renováveis e baratas, que permitem o equilíbrio da nossa balança energética e a reposição das nossas reservas estratégicas.

- No que concerne à política energética, mudança de um conceito de macro-redes de distribuição, mega produtores e consumidores passivos, para micro-redes de distribuição, micro-produtores e consumidores activos (simultâneamente consumidores e produtores), com a consequente poupança em recursos e diminuição da pegada ecológica.

- Tratamento e reaproveitamento económico dos resíduos.  
 
    Indústria manufactureira

    A quarta área de actividade consiste na nossa produção industrial tradicional. Englobamos nesta área as produções de subsectores como os derivados da cortiça; a marroquinaria e calçado; têxtil e moda; cristalaria, vidraria e porcelana; metalurgia e química aplicados à indústria. Vantagens no investimento nesta área:

- Interacção com as indústrias de ID.

- Aproveitamento de matérias primas provenientes do sector primário.

- Mix de mão de obra, com destaque para a necessidade de aplicação de mão de obra intensiva intermédia, o que absorve a população activa com qualificações médias.

- O dimensionamento das unidades produtivas ajuda a estabelecer comunidades locais pujantes e combate a desertificação do interior.

- Aproveitamento do “saber-fazer” adquirido ao longo de décadas.

- Reequilíbrio do peso da indústria face aos serviços no contexto da economia nacional.

- Sector potencialmente exportador, o que melhora a balança comercial e reduz o endividamento externo.
 
- Unidades de “nova geração”, ambientalmente conscientes e energéticamente eficientes.
          
    Cultura e turismo

    Esta última área tem grande potencial, porquanto o nosso povo possui uma cultura própria, rica e vasta, muito apreciada pelos que nos visitam, e o nosso território tem extraordinárias potencialidades turísticas e culturais. Vantagens:

- Aproveitamento da paisagem e do clima, das infraestruturas de qualidade, da cultura local.

- O investimento na cultura e nas artes potencia o desenvolvimento de indústrias ligadas quer à produção manufactureira, ao restauro e à recuperação do património cultural construído e dos acervos existentes, quer no ensino, na produção de actividades culturais (música, teatro, dança, etc.).

- Mix de mão de obra, sobretudo nos sectores da educação e ensino artísticos.

- Melhoria dramática da massa crítica e da sofisticação da população em geral.

- O turismo é determinante para a captação de investimento estrangeiro.

- Exportação da imagem do país, o que, por sua vez potencia mais investimento estrangeiro.

    Identificadas que estão as principais áreas de actividade onde se deve concentrar o investimento, nenhuma outra área fica porém arredada de cuidados e atenção; apenas pretendemos enfatizar as áreas em que o investimento pode ser mais reprodutivo, tendo em conta as nossas necessidades e potencialidades.